
Uma pequena cruz com um violão pendurado era vista e visitada antigamente às margens da Via Dutra, no sentido Rio de Janeiro, na altura de Pindamonhangaba. O mato tomou conta e o modesto oráculo dedicado a um grande ídolo nacional ficou no esquecimento.
Francisco Alves era esse ídolo, o grande cantor e pioneiro dos primeiros acordes da Música Popular Brasileira. A cruz foi uma homenagem dos fãs do popular “Rei da Voz” e o público fazia caravanas para venerar no local a memória daquele que representou a magnitude dos tempos do rádio.
Naquele local na Via Dutra, Francisco Alves teve a vida ceifada por um acidente automobilístico em uma tarde de sábado, 27 de setembro de 1952.
O astro do rádio vinha de São Paulo, onde no dia anterior tinha realizado um show no Largo da Concórdia e ainda deixou os direitos de seu último disco “Canção da Criança”, em benefício do orfanato Casa de Lazaro.
O desamor rendia sucesso - O brasileiro de outrora era mais sentimentalista e defensor das riquezas culturais do seu país. Os tempos eram outros, a música era outra, mais dolente, instrumental, acompanhada de grandes orquestras e coral afinadíssimo. As letras eram compostas com uma agudeza bela e ao mesmo tempo sombria, de tragédias pessoais do desamor.
Alguns que hoje em dia se dizem cantores não teriam a mínima chance naquele período. Pela precariedade das gravações e equipamentos da época, exigia-se alcance vocal absurdo. Cantava-se com vibrato (técnica sonora usando o diafragma) e o domínio sobre as multidões era mediante altas perfórmances com samba-canção e serenatas.
O português falado na época ainda trazia resquícios de uma quase erudição. Além disso, a dicção perfeita e hoje extinta não carregava tanto os "erres" de forma afrancesada como se ouve agora, principalmente no Estado do Rio de Janeiro.
Garoto de rua - Nesse cenário brilhou um homem alto e esguio: Francisco Alves. Nascido na Rua do Acre, centro do Rio de Janeiro e filho de José Alves e Isabel Moraes, imigrantes portugueses. Ainda criança, vivia pelas ruas fugindo das coças do pai, que não o queria com cantor.
O destino fez a sua parte e logo o garoto conseguiria se destacar nas ruas da então Capital Federal, cantando lindamente para os que passavam. Com isso, defendia alguns trocados. No entanto, Seu José Alves dizia que artista era vagabundo e Chico teve que fugir de casa para realizar seu sonho.
O início da carreira - Começou a cantar profissionalmente aos 19 anos com apresentações no Pavilhão do Méier onde foi contratado após um teste feito com o maestro Antônio Lago, pai de Mário Lago. Também se apresentou no Circo Spinelli e fez parte de uma companhia artística que logo se dissolveu, com a chegada na cidade da pandemia de gripe espanhola.
Passou a trabalhar como chofer de taxi durante o dia e cantava à noite. Eram tempos difíceis, mas em 1919, Francisco Alves viria a gravar pelo novo selo chamado Popular. E daí em diante, reinou como o maior nome da música brasileira que naquele período estava ainda em formatação.
Amores - E foi na noite que conheceu sua primeira esposa, Perpétua Guerra Tutoya, a “Ceci”. Casou-se contra a vontade da família, mas vida desregrada da mulher fez a relação durar apenas duas semanas. Após a morte do cantor, Ceci reapareceu para se apossar dos bens do artista.
Outras duas mulheres fizeram parte da vida do cantor. Francisco Alves se casaria com a cantora chilena Célia Zenatti com quem viveu até 1948. Depois dela, envolveu-se com a professora Iraci Alves, bem mais nova que ele, com quem viveu seus últimos quatro anos de vida.
Rei da Voz e do Samba - Francisco Alves, apelidado "Rei da Voz" pelo locutor César Ladeira, ajudou a fixar o samba, um ritmo novo criado no bairro do Estácio. Revelou então os grandes compositores negros como Sinhô, Donga, Ismael Silva, Pixinguinha. Também teve grande parceria com um jovem branco de classe média de Vila Isabel, o grande Noel de Medeiros Rosa.
Cantava todos os estilos, desde marchas carnavalescas, sambas-canções, sambas-exaltação, valsas, tangos, até paródias. Na sua trajetória de grande astro da música brasileira, gravou cerca de 1000 discos e participou de inúmeros filmes, sempre com números musicais, como "Laranjas da China" e "Berlim na Batucada".
Não bebia, mas gostava de futebol e era galanteador junto às mulheres. Seus amigos da época diziam que era um tanto pão-duro e de temperamento forte, inclusive, com a fama de ser bom de briga. Longe da verdade, Chico era alegre, cortez e generoso, mas não gostava de gente aproveitadora.
Além da música, havia três coisas que Francisco Alves gostava demais: um bom carro, cavalos de corrida e o time América, o alvirrubro da Zona Norte do Rio de Janeiro.
27 de setembro - No dia em que morreu, Francisco Alves vinha de São Paulo, onde realizara um grande show, no Largo da Concórdia em homenagem às crianças. Era o dia de Cosme e Damião e o cantor dedicou na data seu novo disco (que seria o último) aos pequenos abrigados na Casa de Lázaro. O cantor queria chegar mais cedo ao Rio a tempo de ver o jogo do América, seu time do coração.
Os planos de sair mais cedo da capital paulista deram errado. O carro de Francisco Alves, um Buick sedan, ano 50 - verdadeiro bólido para a época - teve um problema e não ficou pronto pela manhã na oficina. Assim, o cantor saiu de São Paulo à tarde. E a fatalidade o esperava pelo caminho, como que a perpetuar o trecho da última canção que cantou: "Caminhemos, talvez nos vejamos depois!".
Tragédia nacional - Um ônibus do Expresso Brasileiro passava por Pindamonhangaba por volta das 17h30, momento complicado para quem está na direção de um carro, o chamado crepúsculo. Os jornais da época divulgaram que o Buick do cantor estaria a uma velocidade de 130 km/h.
A Via Dutra só tinha uma pista em 1952, sendo a outra ainda de areia. Um ônibus da empresa Expresso Brasileiro seguia para São Paulo e o condutor viu pelo retrovisor quando um caminhão e um carro esporte azul se chocavam violentamente.
Saindo de uma fazenda no sentido SP foi visto por testemunhas um carro Mercury que entra abruptamente na pista, na frente de um caminhão de leite. O motorista do caminhão joga o veículo para a pista de areia. mas o cantor faz o mesmo e os dois veículos se chocam.
O Buick do cantor capota várias vezes e se incendeia. Um jovem que estava no banco do carona, sobrinho de Francisco Alves, foi ejetado do veículo no momento da colisão. O cantor morreu carbonizado. O motorista do caminhão, João Walter Sebastiani, ficou detido vários dias tentando explicar sua inocência.
O fim de uma era - O sobrinho de Francisco Alves que viajava no carro era Haroldo Alves, que estava hospitalizado. Foi por meio dele que todos ficaram sabendo, naquele momento, que a vítima era o "Rei da Voz".
Em poucos minutos, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro e o Repórter Esso já tinham a confirmação divulgavam para todo o Brasil a notícia da morte. Do Rio, uma comitiva da Rádio Nacional partiu rumo à Pindamonhangaba para recolher os restos mortais de Francisco Alves.
Na delegacia da cidade, a urna aguardava a enorme caravana carioca, liderada pelo locutor Aurélio de Andrade. No trajeto até o Rio de Janeiro, em quase toda a sua extensão, pessoas esperavam à margem da via Dutra para dar o seu último adeus ao cantor. Mulheres jogavam flores sobre a urna mortuária.
O adeus ao Rei - Na Cinelândia passaram mais de meio milhão de pessoas para a despedida ao ídolo. Lágrimas, desmaios, gritos, vindos de pessoas de todas as raças e classes sociais. A urna ficou no salão da Câmara Municipal até segunda-feira (29) e foi transportada pelo Corpo de Bombeiros.
O Rei da Voz foi sepultado no Cemitério São João Batista, bairro de Botafogo. Uma comoção dessa envergadura só se repetiu duas vezes no Brasil: em 1955 com o féretro de Carmem Miranda, e em 1994, no sepultamento de Ayrton Senna.
Francisco Alves morreu no auge e deixou o maior legado que um artista pode deixar para seu país. Só depois de sua partida é que a música estrangeira passou a ocupar espaço nas emissoras do Brasil, aproveitando um vácuo que antes era impensável.
Atualmente, a única lembrança de Francisco Alves ainda pode ser vista às margem da via Dutra: uma singela cruz, em um cantinho no bairro Pinhão do Una, hoje conhecido popularmente em Pindamonhangaba e Taubaté como região do “Chico Alves”.
27 de setembro Francisco Alves Rei da Voz Pindamonhangaba
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