
A terceirização dos serviços públicos é um dos temas mais debatidos nos últimos anos, sendo às vezes motivo de confronto entre a população e os gestores com suas autarquias. Em Pindamonhangaba, a Prefeitura tem seu pronto socorro administrado por uma organização social. Atualmente, o serviço passa por uma nova licitação.
No caso das Unidades Básicas de Saúde (UBS), praticamente todas estão com equipes terceirizadas nas atividades de recepção. E a nova modalidade e sua forma de atuação ainda não é bem compreendida por boa parte da comunidade, principalmente usuários do setor de atendimento básico.
As redes sociais deram voz ao cidadão comum e democratizaram o acesso à informação. Por outro lado, os novos canais de comunicação não contam com filtros para controlar a maturidade ou mediar os posts no que tange à veracidade de denúncias veiculadas e reclamações que surgem.
É quando se faz necessário o jornalismo profissional, para apurar, ouvir os lados e esclarecer os fatos. O Diário Imparcial cede espaço hoje para diretora do Departamento de Atenção Básica à Saúde, Luciana dos Santos Cruz Oliveira.
A diretora da pasta tem uma experiência de 17 anos de serviço no setor de saúde. Luciana conta aqui a dinâmica das transformações na prestação de serviços que atenda satisfatoriamente o público. “Com a população de Pinda é muito tranquilo trabalhar.”, diz a diretora.
Confira a entrevista
Diário: De início, Luciana, fale um pouco desse setor que você administra. Qual a estrutura quanto ao número de funcionários e o total de UBS no município?
Luciana - A atuação básica é composta hoje por 21 unidades de Estratégia de Saúde da Família. São 6 unidades de UBS tradicional e até o final dessa gestão a gente tem aí, por volta de ampliarmos para 33 unidades de atenção primária.
Diário: E no atendimento domiciliar, quantos agentes atuam no município?
Luciana - Em Pindamonhangaba, temos o serviço de EMAD que é o atendimento domiciliar, sobre minha responsabilidade. Hoje, aproximadamente, nós temos cerca de 460 funcionários somente na minha pasta.
Diário: Nota-se que é um número expressivo. Quais as principais atividades desse setor?
Luciana - Então, é uma pasta bem densa, bastante grande, né? E a atenção básica é a porta de entrada para qualquer serviço SUS. Tanto para curativo, vacina, consultas com especialista, cirurgias... Antes do paciente ser encaminhado para as outras esferas, ele tem que passar na atenção básica, que são os postinhos de saúde disseminados no bairro do município.
Diário: A população tem reclamado da terceirização, de que o serviço perdeu qualidade. Procede isso?
Luciana - O setor está passando por terceirização e a gente sabe que sempre tem uns ajustes para ser feito e algumas reclamações. A população às vezes não entende no momento o que está ocorrendo e confunde as coisas.
Diário: No Jardim Imperial, houve a troca de mão de obra na recepção da unidade básica por trabalhadores terceirizados. Reclamam que está havendo atraso no atendimento.
Luciana - Não, não tem nada a ver com terceirização. O que acontece é que no projeto de Estratégia de Saúde da Família, lá em 1990, o Ministério da Saúde não previu a recepção, serviços de limpeza... Com o passar do tempo veio a tecnologia, as pessoas foram perdendo emprego e as coisas começaram a mudar. A gente começou a perceber que o agente comunitário estava ficando mais tempo dentro da unidade
Diário - Você relata que então havia acúmulo de função?
Luciana - Então, o que acontecia é que o agente de saúde estava atuando na recepção e serviços administrativos em vez de cumprir com o serviço que ele precisa realizar, que é ir nas ruas, casa a casa e conhecer o território. Os atrasos em consultas que a população reclama tanto, portanto, não tem nada a ver com a terceirização da recepção.
Diário - Você então acha que a terceirização desses serviços é algo inevitável?
Luciana – Com certeza! Houve essa necessidade. A maioria dos municípios que enxerga essa realidade está tentando fazer exatamente isso. Então, a possibilidade que nós tivemos para ajudar e auxiliar a nossa pasta realmente foi essa, de terceirizar a recepção. A recepção veio para dar um suporte a mais, são pessoas treinadas, capacitadas, você pode até olhar quando chega lá, estão todas uniformizadas e com crachá de identificação.
Diário – Ainda ocorrem aqueles casos em que munícipes marcam uma consulta e não comparecem?
Luciana – Constantemente, Ocimar! A gente está tentando acertar as coisas, arrumar a casa para poder prestar um serviço de qualidade para toda a população. O que as pessoas precisam entender é que todas as vezes que alguém falta em consulta, gera outra consulta. Isso porque eu não posso dispensar.
Diário – Você acha que esse tipo de ocorrência também contribui para atrasar a marcação de consultas para quem realmente precisa?
Luciana - Infelizmente, é bem isso! Esses atrasos em consulta também são consequência das consultas que estavam agendadas. São os casos em que as pessoas não compareceram e que eu tenho que ficar remanejando vezes seguidas. Então, é uma questão de consciência, no geral, para todo mundo. A gente consegue sim, executar o trabalho, mas depende sempre um do outro.
Diário - Qual a porcentagem de faltas à consultas marcadas?
Luciana - Hoje, a gente tem uma porcentagem de 36 % a 38 % de abstenção e isso gera um impacto muito grande, porque não dá pra recorrer e nem repor pacientes no horário. Se a pessoa desmarca com antecedência, poderia abrir vaga pra outro, mas isso não ocorre. É muito importante é que as pessoas sempre pensem no próximo.
Diário - As unidades de saúde, todas, enfim, já estão terceirizadas ou isso está sendo um processo gradual?
Luciana - Na minha pasta, da Atenção Básica, todos os postos da atenção básica têm terceirização de recepção administrativa. Todos têm, atendente administrativo.
Diário - Procede a informação de que a demanda do Jardim Bela Vista está indo para o Jardim Imperial?
Luciana - Procede, mas o acontece que é assim: com aquele tempo de chuva forte, nós já tínhamos um projeto de uma emenda impositiva que veio, de um vereador do município para poder fazer a reforma da unidade do Bela Vista. Com a quantidade de chuva, estava tendo muita infiltração, começou a correr o risco do teto ceder. Então, não houve tempo suficiente para alugar e adequar esse espaço e tirar os funcionários. Era um risco que funcionários e população corriam.
Diário - São dois grupos de atendimento então, uma para cada bairro? E não há superlotação?
Luciana – Não há! O Jardim Imperial não atende a população do Bela Vista e nem o Bela Vista atende o Imperial. Eles estão exatamente, somente dividindo os espaços. Nós tivemos que fazer drasticamente essa transferência. Colocamos duas equipes em um único lugar para atender as duas populações e cada equipe atende a sua população.
Diário: Sobre o tempo que se leva para marcar consultas, não há atrasos, como reclamaram na região do Jardim Imperial e Bela Vista?
Luciana - Não procede! A unidade do Jardim Imperial é uma das menores unidades que nós temos hoje, com uma grande população de idosos, maior do que em outras regiões. Hoje temos uma profissional excelente lá, que é a doutora Marcela. Assim, nunca demora mais que três dias para uma consulta, nem lá e nem em nenhuma unidade que tem a porta aberta.
Diário: Nunca há falta de médicos ali ou em outra unidade do município?
Luciana - Aquela unidade, ficou sim, um bom tempo sem profissional médico, porque a médica, na época do Covid, ela se afastou. A gente teve que deslocar vários médicos para poder suprir a necessidade daquela unidade, fazer revezamento.
Diário – O município está investindo em novas unidades básicas de saúde. Quais são elas?
Luciana - Nós estamos aí perto de inaugurar o Parque das Nações, que é aqui onde era a antiga Secretaria de Saúde, né? É uma unidade que vai atender essa população do Alto do Cardoso. E também o Morumbi onde em breve, se Deus quiser, vamos inaugurar também [uma unidade].
Diário - Você acredita então que essas duas novas UBS vão aliviar o intenso movimento de outras unidades?
Luciana - Na região central, principalmente, e do Crispim. Porque quem vai ser atendido na região do Parque das Nações, hoje é referenciado no Posto Centro. E para quem hoje é atendido naquela região do Morumbi, Água Preta, Carangola, tudo vai pro Crispim.
O Posto do Crispim também foi reformado, recentemente, ficou bem bonito, mas ele não comporta tantas pessoas. Por isso houve a necessidade de descentralizar.
Diário - Mais algum esclarecimento importante para a população?
Luciana - O meu dever é estar aqui pra servir e pra ajudar. Eu gosto do que eu faço. Então, assim, quando a gente gosta do que a gente faz, consegue quase sempre fazer o melhor. Minha porta está sempre aberta para esclarecimentos.
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