No Km 105 da pista sentido Rio, da Via Dutra, as placas indicativas apontam para a cidade de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba. Naquele ponto, parece que a velocidade dos veículos diminui, há uma sensação de abertura de um portal do tempo. Ali, é como se a brisa sussurrasse canções e acordes de um violão.
Imagine um tempo muito distante, quando o Brasil ainda dava seus primeiros passos para se configurar como uma nação de cultura e música própria. Até então, era maxixe e chorinho o que se ouvia nos gramofones, além de versões de ritmos europeus como valsa e polca.
A partir do surgimento em 1917 da música “Pelo Telefone” de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba oficial gravado, eis que um universo se abre para um tão aguardado elemento cultural. Era o ícone que a sociedade brasileira tanto buscava.
E foi assim que o Rio amanheceu cantando. Chegava um estilo nacional, um jeito brasileiro de ser e que nascia com sucesso comercial e grande repercussão. Todavia, por conta do berço nos redutos negros do Rio de Janeiros como os bairros do Estácio e Catumbi, propagar o estilo não era tarefa fácil.
Nesse cenário surgiria um jovem branco, chover de praça que passou a infância cantando nas ruas para defender alguns trocados. Francisco de Moraes Alves era um homem alto e esguio, filho de comerciante português, ávido pelo protagonismo que sabia ser seu.
Francisco Alves transformou-se rapidamente em ícone do Brasil da Era do Rádio. Não por acaso, o leonino nascido em 19 de agosto viria a ser chamado de “Rei da Voz”. Mesmo passados mais de 70 anos de sua morte trágica na Via Dutra, ainda é alvo de muitas pesquisas na internet.
Sempre com o companheiro violão, fazia ecoar o vozeirão de tenor que nos dias atuais não dependeria dos aparatos técnicos das mesas de som. O artista deixou uma marca inesquecível no imaginário da nação quando a música brasileira ainda era a única dona do gosto popular.
Era dia dos santos católicos Cosme e Damião e o país parecia ter perdido alguém da família. Com a autoestima em baixa desde 1950 após a perda da Copa do Mundo no Maracanã, a população tinha se apegado a sua única referência.
Sem o vulto de Chico Viola, o Brasil sentiu-se órfão e também partiu naquele tarde de 27 de setembro. Quando voltou, não era mais o mesmo!
27 de setembro Francisco Alves Via Dutra Diário Imparcial